Mercado Coin morreu. E essa é uma das notícias mais importantes da semana
No dia 31 de março de 2026, a Mercado Libre anunciou o fim do Mercado Coin.
Sem cerimônia. Sem comunicado elaborado. Sem motivo oficial. Apenas uma mensagem para os usuários: até 17 de abril, venda seus tokens ou eles viram fiat automaticamente.
Fim de expediente.
O Mercado Coin foi lançado em agosto de 2022 no Brasil. Era um token ERC-20 de cashback, distribuído automaticamente para quem fazia compras no Mercado Pago. Funcional, simples, atrelado a uma base de dezenas de milhões de usuários.
Durante quatro anos, a empresa mais valiosa da América Latina apostou nessa ideia. Agora, ela descartou.
O que foi o Mercado Coin na prática
Não era um token de especulação. Era cashback em formato de crypto.
Você comprava no Mercado Livre, recebia Mercado Coins como recompensa, podia usar nas próximas compras ou sacar via Mercado Pago. O design tentava combinar retenção de usuário com adoção de cripto.
O token rodava na rede Ethereum. A empresa tinha infraestrutura real, parceria com custodiadoras, integração nativa no app. Não era brinquedo.
E ainda assim morreu.
Por que isso importa
Porque o Mercado Coin não morreu por falta de usuários. A base da Mercado Libre no Brasil ultrapassa 50 milhões de pessoas. Morreu por outra razão.
O problema de tokens de loyalty não é adoção. É controle.
Um token na blockchain é um ativo que você não controla completamente. A volatilidade afeta a percepção de valor do cashback. A regulação de criptoativos exige compliance que não existia quando o token foi lançado. E, principalmente, o Banco Central brasileiro publicou em fevereiro de 2026 as resoluções 519, 520 e 521, que formalizaram o framework regulatório para exchanges e emissores de criptoativos no país.
Operar um token de cashback sob esse novo framework tem um custo. A Mercado Libre calculou que não valia.
O que a empresa quer no lugar
A Mercado Libre não está saindo de cripto. Está trocando de veículo.
O MUSD, batizado internamente de Meli Dolar, é a stablecoin própria da empresa, atrelada ao dólar americano. A direção é clara: sair de um ativo volátil e regulatoriamente complexo para um instrumento de pagamento estável, que funciona dentro da faixa de regulação de stablecoins.
Stablecoins são mais fáceis de defender perante um regulador. São mais previsíveis para o usuário. E ainda permitem à empresa capturar valor dentro do ecossistema sem expor o usuário a oscilação de preço.
É uma jogada inteligente. Mas também é um abandono explícito do experimento de token próprio.
A lição para investidores
Tokens corporativos de loyalty sempre tiveram um problema estrutural: o token só tem valor porque a empresa diz que tem.
Se a empresa decide encerrar, o valor vai junto. Não existe mecanismo de defesa para o holder. Não existe comunidade descentralizada que possa forçar a continuidade. Você estava apostando na promessa de uma corporação, não em um protocolo.
Isso não é novo. O Amazon Coin, o Facebook Libra, o token da Nike com a RTFKT, vários experimentos corporativos de loyalty em blockchain já passaram por esse caminho. A Mercado Libre foi diferente porque tinha escala LATAM real. E mesmo assim o resultado foi o mesmo.
O paralelo com Bitcoin e Ethereum é direto. Nenhuma empresa pode fechar o Bitcoin. Nenhum conselho de administração pode decidir que vai converter seus ETH em fiat até dia 17. O valor de ativos descentralizados vem exatamente da impossibilidade de esse tipo de decisão existir.
O que acontece com quem ainda tem tokens
Segundo a empresa, qualquer saldo de Mercado Coin não usado até 17 de abril de 2026 será convertido automaticamente para reais no app do Mercado Pago, pela cotação do momento.
Não há risco de perder o valor nominal. O risco já aconteceu antes: quem comprou Mercado Coin como ativo especulativo viu o preço oscilar bastante ao longo dos quatro anos. A liquidação compulsória em fiat apenas cristaliza o resultado.
O que fica de atenção
A morte do Mercado Coin não é um sinal de que a Mercado Libre está recuando de cripto. É o oposto: a empresa está se posicionando num terreno mais sólido antes que a regulação feche a janela de improviso.
O MUSD vai chegar com mais robustez regulatória. E quando chegar, vai ter dezenas de milhões de usuários já acostumados com crypto dentro do app.
Esse é o movimento real. O token de loyalty era só o ensaio.
LATAM Alpha cobre o que importa para o investidor cripto na América Latina, antes de todo mundo.