A América Latina ainda minera pouco Bitcoin, mas o mapa já não é o mesmo
Tem muita gente olhando para ETF, stablecoin e regulação em Washington.
Enquanto isso, uma parte bem menos glamourosa do mercado segue sendo ignorada: quem está de fato segurando a rede de pé.
O relatório da Hashrate Index publicado em 15 de abril trouxe um dado que parece pequeno numa leitura apressada. A América Latina responde por algo entre 5% e 6% do hashrate global de Bitcoin.
Não impressiona, à primeira vista.
Só que o número agregado esconde duas histórias bem diferentes.
A primeira é que o Paraguai já não cabe mais na categoria de curiosidade regional. Segundo o relatório, o país chegou a cerca de 43 EH/s no segundo trimestre de 2026, o equivalente a 4,3% do hashrate global. Isso coloca o Paraguai em quarto lugar no mundo, atrás apenas de Estados Unidos, Rússia e China.
Vale repetir: quarto lugar no mundo.
Para um país de 7 milhões de habitantes, isso é enorme.
A segunda história é que o Brasil começou a andar num ritmo que o mercado não pode tratar como acaso. O relatório estima 3,5 EH/s para o país, alta de 133% em um ano. Não é um salto de quem está brincando de arbitragem elétrica por alguns meses. É sinal de operador montando estrutura para ficar.
O Paraguai virou potência porque a conta fecha de verdade
No caso paraguaio, a explicação não tem mistério.
A energia hidrelétrica excedente faz quase todo o trabalho. A Hashrate Index destaca tarifas industriais na faixa de US$ 0,037 a US$ 0,050 por kWh, sustentadas pelo excedente de Itaipu e por uma estrutura que há anos empurra o país para ter eletricidade sobrando e barata.
Quando o hashprice aperta, é isso que separa quem continua online de quem desaparece.
O próprio segundo trimestre mostrou bem esse ambiente. O hashrate global caiu para 1.004 EH/s, contra 1.066 EH/s no trimestre anterior, e o hashprice encostou em mínimas históricas perto de US$ 27,89 por PH/s/dia. Máquina velha saiu. Operação cara saiu. Lugar onde a energia pesa demais na conta saiu.
Paraguai ficou.
Isso diz mais do que muita narrativa bonita sobre "hub regional".
O Brasil começa a sugerir uma tese mais séria
O Brasil ainda está longe do tamanho do Paraguai na mineração, mas a trajetória chama atenção.
Sair de 1,5 EH/s para 3,5 EH/s em um ano, num ciclo ruim para rentabilidade, não parece movimento de aventureiro. Parece teste de infraestrutura mais permanente, ainda mais depois da abertura do mercado livre de energia para grandes consumidores.
Se esse avanço sobreviver ao segundo semestre, a leitura muda bastante.
O Brasil passaria a ser mais do que um país grande com muito usuário de exchange e muito debate regulatório. Passaria a ser também um pedaço relevante da infraestrutura física do Bitcoin.
E isso importa.
Mercado costuma premiar o lado visível do setor. Exchange, token, ETF, narrativa. Só que, quando uma jurisdição começa a atrair operação que consome energia, instala máquina e depende de estabilidade contratual, o nível de compromisso sobe muito.
A Argentina continua sendo o contraponto desconfortável
Talvez o dado mais frustrante do relatório esteja aí.
A Argentina tem gás, tem tese energética, tem história recente de adoção cripto e, ainda assim, aparece com cerca de 1 EH/s e queda de 42% em um ano.
Isso não parece problema de recurso natural. Parece problema de ambiente.
Você pode ter energia interessante no papel. Se o operador não consegue confiar no marco econômico, no custo efetivo ou na previsibilidade mínima do país, o capital vai para outro endereço.
É por isso que a comparação regional ensina tanto.
No mesmo continente, você tem um Paraguai que já virou potência silenciosa, um Brasil começando a dar sinais de vida institucional e uma Argentina que segue desperdiçando vantagem óbvia.
O mercado talvez ainda trate mineração como assunto secundário
Eu acho um erro.
Mineração é uma boa forma de enxergar quais países realmente conseguem transformar energia barata em infraestrutura digital de longo prazo.
É por isso que eu olho para o relatório de 15 de abril menos como fotografia e mais como filtro.
O filtro mostra quem tem custo competitivo, quem tem estabilidade suficiente e quem só parecia promissor enquanto o dinheiro estava fácil.
Quando o ciclo aperta, a maquiagem cai.
A leitura que fica
A América Latina ainda é pequena no mapa global da mineração de Bitcoin. Isso é fato.
Mas também já não é um território irrelevante.
O Paraguai já entrou de vez no grupo que o mercado precisa levar a sério. O Brasil começou a dar sinais de que pode virar alguma coisa maior do que muita gente imaginava. E a região, com toda a energia que tem, segue sendo um laboratório brutal para distinguir infraestrutura de verdade de oportunidade passageira.
Se eu tivesse que resumir em uma frase, seria essa:
a América Latina ainda não manda no hashrate global, mas o mapa já começou a mudar.