Aave trocou o degen pela tesouraria

Aave trocou o degen pela tesouraria

Durante anos, DeFi vendeu uma fantasia muito simples.

Tira o intermediário, abre o pool e deixa o capital correr solto.

O problema é que dinheiro grande raramente compra fantasia.

Compra regra de risco.

É por isso que a nova fase da Aave merece atenção.

No dia 30 de março, o protocolo lançou o Aave V4 com uma arquitetura hub-and-spoke. Em vez de liquidez espalhada em caixas separadas, a proposta é manter um centro comum e isolar mercados específicos nas pontas.

Parece detalhe técnico.

Só que detalhe técnico vira produto quando o cliente deixa de ser degen e passa a ser tesouraria.

o Horizon mostra para onde a conversa virou

O Horizon é a versão mais explícita dessa mudança.

A proposta é simples de entender e bem menos romântica do que o DeFi de 2021.

Trata-se de um mercado permissionado, voltado a entidades qualificadas, com foco em colateral institucional como títulos tokenizados e stablecoins de melhor qualidade.

Na semana de 6 de abril, o Horizon carregava US$ 354,8 milhões em TVL, com US$ 206,5 milhões em stablecoins fornecidas e US$ 106,3 milhões em empréstimos líquidos.

Na semana de 14 de abril, os números já tinham subido para US$ 364,8 milhões em TVL, US$ 212,6 milhões em stablecoins e US$ 111,7 milhões em net borrows.

Não é capital de turista.

É capital procurando trilho.

então veio o choque que costuma desmontar tese bonita

No dia 18 de abril, o episódio do rsETH ligado ao KelpDAO e à ponte da LayerZero virou teste real de estresse.

O mercado viu mais de US$ 290 milhões em rsETH sem lastro entrarem como colateral, puxando empréstimos, pressão de venda e uma corrida por liquidez dentro do ecossistema.

Até 22 de abril, os dados acompanhados pelo mercado apontavam que o TVL agregado da Aave tinha caído de US$ 45,8 bilhões para US$ 29,6 bilhões.

As saídas passaram de US$ 16 bilhões.

Esse é o ponto em que muita tese morre.

Quando a liquidez some, a retórica libertária geralmente não paga a conta.

a resposta da Aave foi menos ideológica e mais financeira

Foi aí que a mudança de fase ficou clara.

Em vez de vender bravata, o ecossistema correu para montar backstop.

A coalizão apelidada de DeFi United passou a costurar uma recuperação superior a US$ 303 milhões. O Arbitrum Security Council congelou algo entre US$ 71 milhões e US$ 73,5 milhões em ETH ligados ao ataque. No dia 3 de maio, uma proposta da Mantle colocava até 30 mil ETH na mesa para reforçar a estabilização dos mercados afetados.

Nada disso tem glamour.

Tem cara de encanamento financeiro.

Tem cara de protocolo tentando provar que sabe sobreviver quando o colateral falha.

Segundo membros do ecossistema, o Horizon voltou a cruzar US$ 500 milhões em TVL em 1º de maio.

Mais importante do que o número em si foi o recado.

O mercado ainda topa usar essa infraestrutura, desde que o desenho de risco fique mais adulto.

a narrativa mudou, e muita gente ainda não percebeu

Tem investidor olhando para DeFi e esperando a volta do cassino.

Talvez esteja procurando no lugar errado.

A parte mais séria do setor não quer mais vender só liberdade para o varejo.

Quer vender eficiência para operador profissional.

Liquidez unificada.

Mercados isolados.

Colateral mais previsível.

Capacidade de separar um problema ruim do resto da casa.

É um pitch muito menos sexy.

Também é muito mais vendável para quem administra caixa grande.

isso não torna a Aave imune a erro

Seria infantil contar essa história como vitória limpa.

O caso do rsETH mostrou que ponte, restaking e colateral complexo continuam podendo contaminar o sistema com uma velocidade brutal.

Mercado permissionado também não elimina risco político, risco de governança nem dependência de oráculos e parâmetros bem ajustados.

Só que a direção do produto ficou mais evidente.

A Aave já não está tentando provar que DeFi substitui banco da noite para o dia.

Está tentando provar que algumas funções bancárias podem rodar on-chain com liquidez melhor, colateral melhor e menos desperdício de capital.

talvez esse seja o DeFi que sobrevive

Se essa leitura estiver certa, o próximo vencedor do setor não vai parecer a velha fantasia de yield farm infinita.

Vai parecer infraestrutura chata.

Vai parecer mercado permissionado.

Vai parecer protocolo que conversa melhor com tesouraria do que com Telegram de trader alavancado.

É menos divertido.

Mas, nesta fase do ciclo, pode ser exatamente isso que o dinheiro grande quer comprar.

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