O saldo do consignado para trabalhadores do setor privado cresceu 47,8% no primeiro semestre, para R$ 113,3 bilhões. Fernando Rocha, chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, afirmou em entrevista coletiva, segundo a Reuters, que a maioria das operações parece ser crédito novo.
O BCB não publicou decomposição por número ou valor entre originação, refinanciamento e portabilidade. A avaliação, portanto, não prova que a maior parte do aumento do saldo veio de dívida nova. Se vier, pode acrescentar poder de compra e risco bancário; se substituir dívida cara, pode aliviar o serviço financeiro.
O BC vê sinais, sem decomposição publicada
A arquitetura do Crédito do Trabalhador ampliou o acesso de empregados formais, inclusive rurais e domésticos. A parcela pode comprometer até 35% do salário. A funcionalidade de garantias começou às 14h de 26 de junho, com envio gradual de informações pelas instituições. A regulamentação permite autorizar 35% das verbas rescisórias, até 100% da multa do FGTS e até 10% do saldo vinculado. As duas últimas garantias dependem do tipo de desligamento; o saldo de 10% é restrito a optantes do saque-rescisão.
O preço é menor que em alternativas sem garantia, mas continua alto. Em junho, a taxa média anualizada das novas concessões foi de 54,0% no consignado privado e de 149,5% no crédito pessoal sem garantia. A diferença de 95,5 pontos percentuais ajuda a explicar a demanda, sem revelar a destinação dos recursos.
| Indicador | Base de comparação | Leitura no corte |
|---|---|---|
| Saldo | dezembro de 2025 a junho de 2026 | R$ 76,7 bi para R$ 113,3 bi, alta de 47,8% |
| Crescimento em 12 meses | junho de 2025 a junho de 2026 | 143,1% |
| Juros das novas concessões do consignado privado | junho de 2026 | 54,0% ao ano |
| Juros das novas concessões do pessoal sem garantia | junho de 2026 | 149,5% ao ano |
| Inadimplência do consignado privado | dezembro de 2025 a junho de 2026 | 5,5% para 8,6%, alta de 3,1 p.p. |
Fonte: Banco Central do Brasil, tabelas de crédito publicadas em 30 de julho de 2026. Saldo, juros e inadimplência de abril a junho são preliminares; renda de março a maio também.
A expansão vem com três riscos
O primeiro é a qualidade da expansão. Para o BCB, inadimplência é o saldo de operações com atraso superior a 90 dias e ainda não baixadas a prejuízo, dividido pelo saldo total da carteira. O indicador preliminar chegou a 8,6%, recorde da série, e o Banco Central afirmou não haver evidência estatística de pico.
O segundo é a garantia. A regulamentação define que, na rescisão, usam-se primeiro as verbas rescisórias; persistindo saldo, podem ser acionados o saldo vinculado e a multa do FGTS, nessa ordem e até o limite contratado. A dívida remanescente pode ser paga com recursos próprios, renegociada ou cobrada no próximo vínculo de emprego. Como a funcionalidade começou gradualmente no fim de junho, a série mensal não isola seu efeito.
O terceiro é macroeconômico. O comprometimento de renda chegou a 28,5% em maio, recorde preliminar da série dessazonalizada. Se os recursos financiarem gastos, podem sustentar o consumo; se substituírem dívida cara, podem aliviar o serviço financeiro. Sem dados de destinação, o efeito líquido sobre demanda, inflação e juros permanece um cenário.
Para o investidor, volume não basta. O saldo maior pode elevar receita bruta, mas o resultado dependerá de seleção de risco, garantias recuperadas, perdas e provisões.
Os próximos meses precisam mostrar desaceleração da inadimplência e estabilidade do comprometimento de renda. Sem isso, o desconto em folha não provará baixo risco.