Em 30 segundos
- Mounjaro e Zepbound somaram US$ 14,9 bilhões, ou 64,7% da receita trimestral da Eli Lilly.
- Em painel da Numerator, domicílios com usuários reduziram gasto em supermercado e refeições rápidas, enquanto elevaram compras de roupas após 6 a 8 meses.
- A tese será confirmada por volume, preço realizado, cobertura e margens setoriais, não apenas por pesquisas de intenção.
A Eli Lilly, farmacêutica americana que fabrica Mounjaro e Zepbound, encerrou o segundo trimestre com um retrato da escala alcançada pelos medicamentos GLP-1. Os dois produtos somaram US$ 14,9 bilhões em vendas, quase dois terços da receita da companhia.
GLP-1 virou o nome mais conhecido de medicamentos que atuam em sinais hormonais ligados à glicose e à saciedade. A tirzepatida de Mounjaro e Zepbound também atua em outro receptor, o GIP. A FDA explica que Mounjaro é aprovado para diabetes tipo 2 nos Estados Unidos, enquanto Zepbound é a marca aprovada para controle de peso. Por isso, nem toda a receita dos dois produtos pode ser atribuída ao emagrecimento.
Os indícios econômicos já aparecem fora da farmácia. Pesquisas recentes registram menos gasto em parte da alimentação e mais em roupas entre usuários. Para empresas de consumo, quantas pessoas usarão o medicamento é apenas a primeira pergunta. A segunda é para onde o dinheiro irá depois da mudança de apetite e de tamanho corporal.
A escala farmacêutica chegou ao consumo
Nos números globais, a Lilly informou receita de US$ 22,97 bilhões no trimestre, alta de 48% sobre um ano antes. Mounjaro avançou 91%, para US$ 9,94 bilhões. Zepbound cresceu 46%, para US$ 4,93 bilhões.
| Receita no 2º trimestre de 2026 | Valor | Participação na Lilly |
|---|---|---|
| Mounjaro | US$ 9,94 bi | 43,3% |
| Zepbound | US$ 4,93 bi | 21,5% |
| Mounjaro + Zepbound | US$ 14,87 bi | 64,7% |
| Lilly | US$ 22,97 bi | 100% |
Fonte: Eli Lilly. A participação foi calculada sobre a receita trimestral divulgada pela companhia.
O volume vendido aumentou 60% no consolidado, enquanto o preço realizado recuou 13%. Esse preço é a receita média líquida por unidade depois de descontos e outros ajustes. A Lilly citou a redução já anunciada do preço de Zepbound para pagamento direto e a entrada de Mounjaro na lista de reembolso da China. Ajustes nas estimativas de abatimentos e descontos compensaram parte da queda nos Estados Unidos. A base de pacientes cresce, mas a receita por tratamento sofre pressão.
A concentração também eleva o risco. Mounjaro e Zepbound já respondem por 64,7% da receita da Lilly. Um problema de produção, segurança, cobertura ou competição atingiria uma parcela grande da receita e poderia pressionar margens e lucro, cuja contribuição por produto não foi divulgada. A rival Novo Nordisk amplia a disputa com Ozempic e Wegovy. O mercado farmacêutico cresceu, mas ficou dependente de escala industrial, acesso e permanência dos pacientes.
A cesta muda entre comida e vestuário
A adoção já alcançou uma parcela grande da população. O Gallup apurou que 11% dos adultos americanos usavam GLP-1 para perda de peso em 2026, ante 3% em 2024. A pesquisa ouviu 5.065 pessoas e tem margem de erro geral de 1,5 ponto percentual.
A PwC analisou dados da Numerator e estimou que 21% dos domicílios americanos incluíam um usuário atual em maio. O denominador é diferente: o Gallup mede adultos, enquanto a Numerator conta domicílios com ao menos um usuário. Em um painel transacional de cerca de 110 mil domicílios, as coortes com 6 a 8 meses de uso apresentaram esta mudança:
| Categoria | Variação de gasto por domicílio |
|---|---|
| Supermercado | -5,5% |
| Restaurantes de serviço rápido | -8,7% |
| Vestuário | +9,9% |
Fonte: PwC e Numerator, atualização de maio de 2026. As variações são associações observadas no painel e não isolam o efeito do medicamento de renda, idade ou outras mudanças de comportamento.
O deslocamento é mais útil do que uma leitura simples de vencedores e perdedores. Dentro do supermercado, doces, salgadinhos, bebidas açucaradas e álcool podem perder volume, enquanto proteínas, frutas, vegetais e suplementos ganham espaço. Restaurantes podem vender menos por visita e ainda defender receita com porções menores, preço adequado e cardápio mais rico em proteína.
O varejo americano já vinha crescendo com procura por desconto. Os painéis colocam os GLP-1 entre as hipóteses para a mudança na composição da cesta, sem isolar causalidade. Uma família pode continuar gastando, porém direcionar menos dinheiro para comida por impulso e mais para roupas, atividade física e serviços ligados à mudança corporal.
A loja física ganhou uma oportunidade inesperada
A roupa cria um problema que o comércio eletrônico resolve mal durante uma perda rápida de peso: descobrir o novo tamanho. Em pesquisa da ReturnPro com 500 usuários, citada pela Reuters, 69% disseram estar mais propensos a comprar em loja. Entre os entrevistados que compram marcas premium, a parcela chegou a 91%.
A amostra é pequena e veio de uma empresa que trabalha com devoluções. Ela serve como indício, não como retrato nacional. Mesmo assim, o mecanismo é concreto. Quem muda de tamanho precisa provar peças, comparar cortes e pode adiar compras maiores até o peso estabilizar.
Isso favorece redes com provadores, equipe treinada, ajustes, troca simples e estoque flexível. Também cria custos. O varejista precisa prever uma distribuição de tamanhos que pode mudar mais rápido, manter mais opções e absorver trocas durante a transição. O ganho depende da combinação entre venda e serviço, em vez de apenas colocar mais peças na arara.
Volume, preço e margem dirão se a mudança ficou
Para farmacêuticas, o primeiro sinal é o equilíbrio entre volume e preço realizado. Mais cobertura amplia o mercado, enquanto descontos e concorrência reduzem a receita por paciente. Para alimentos e restaurantes, importam volume, tamanho das porções, tíquete médio e margem. Para vestuário, tráfego sem conversão ou com devolução alta pode custar mais do que parece.
O orçamento familiar continua sujeito a outras forças. A dívida do cartão americano já encolheu com juros acima de 22%, o que também pode alterar compras discricionárias. Por isso, atribuir toda mudança de consumo aos medicamentos seria precipitado.
O cenário-base é uma redistribuição gradual do gasto, sem queda uniforme do consumo. Fabricantes líderes, produtos de alimentação alinhados ao novo mix e serviços ligados à mudança corporal podem capturar parte desse dinheiro. O principal risco é a associação enfraquecer quando as coortes amadurecerem, pacientes interromperem o tratamento ou cobertura e preço limitarem a adoção.
Quatro sinais testarão a tese: prescrições e permanência no tratamento, preço realizado, repetição das mudanças em painéis independentes e margens reportadas pelas empresas expostas. Se o gasto voltar ao padrão anterior depois da estabilização do peso, o efeito será temporário. Se persistir e aparecer nos balanços, a mudança terá se tornado relevante para setores muito além das farmacêuticas.