macro Análise

O Brent passou de US$ 100, mas o gargalo está nas refinarias

O Brent passou de US$ 100, mas o gargalo está nas refinarias

O Brent rompeu novamente a marca de US$ 100 por barril nesta sexta-feira, 24 de julho. A imagem é suficiente para trazer de volta as perguntas conhecidas sobre gasolina, inflação e bancos centrais. Só que o barril deixou de ser a melhor medida da pressão que atravessa o mercado de energia.

Às 3h30 GMT, o Brent negociava a US$ 101,06, enquanto o WTI estava em US$ 91,20. Segundo a Reuters, os dois caminhavam para altas semanais de 14,6% e 11,8%. Desde o início da guerra, porém, referências de diesel europeu e gasolina americana acumularam avanço próximo de 65%, aproximadamente o dobro da valorização do Brent.

Essa divergência conta uma história diferente da simples falta de petróleo. O mundo conseguiu recuperar parte da produção de crude e colocar mais barris sobre a água, mas refinarias, terminais e rotas de produtos acabados responderam muito mais devagar. O mercado passou a ter mais matéria-prima disponível do que capacidade confiável para transformá-la em diesel, gasolina e combustível de aviação nos lugares onde eles são necessários.

O preço acima de US$ 100 continua importante. A margem entre o barril e seus derivados, contudo, mostra onde a escassez está sendo remunerada.

US$ 100 conta só metade da história

A reação automática a uma alta do Brent costuma começar pela oferta. Se o petróleo sobe, a hipótese inicial é que há menos produção, menos exportação ou mais demanda. Esse raciocínio funciona em boa parte do tempo, embora fique incompleto quando a cadeia perde capacidade em etapas posteriores.

Foi o que aconteceu depois da guerra com o Irã. O Estreito de Hormuz deixou de operar normalmente, campos reduziram produção, refinarias sofreram ataques e compradores passaram a lidar com seguro mais caro e disponibilidade menor de navios. A pressão de Hormuz sobre o petróleo e o risco global reapareceu em julho, antes que o fluxo tivesse se recuperado por completo.

A novidade agora é que o problema não termina na entrada ou na saída do estreito. A Arábia Saudita desviou volumes para sua costa do Mar Vermelho, os Estados Unidos aumentaram o ritmo de refino e cargas de crude voltaram a circular. Mesmo assim, o diesel e a gasolina continuaram apertados. O elo mais valioso passou a ser a capacidade de processar, armazenar e entregar o derivado certo.

Isso explica por que o Brent pode subir 30% desde o início da guerra enquanto alguns combustíveis avançam perto de 65%. O preço do crude remunera o barril. O crack spread, diferença entre o valor dos produtos e o custo do petróleo usado para produzi-los, remunera a refinaria. Quando o segundo cresce muito mais que o primeiro, o mercado está dizendo que o processamento ficou relativamente mais escasso.

O bruto voltou antes do combustível

O relatório de julho da Agência Internacional de Energia oferece a evidência mais clara dessa separação. A oferta global de petróleo subiu 4,1 milhões de barris por dia em junho, para 98,8 milhões, com a retomada parcial dos fluxos pelo Golfo. As exportações da região aumentaram 6,5 milhões de barris por dia e chegaram a 16,1 milhões.

Ainda era um volume bem inferior aos 24 milhões de barris por dia anteriores à guerra. A composição, no entanto, importa mais que a recuperação agregada. Petróleo bruto e condensado responderam por 85% do aumento mensal. Em junho, os fluxos de crude já haviam voltado a quase três quartos do nível de fevereiro, enquanto as exportações de derivados e gás liquefeito do petróleo permaneciam abaixo da metade do patamar pré-guerra.

Havia mais petróleo viajando, inclusive 117 milhões de barris adicionais armazenados sobre a água. Os estoques em terra continuavam caindo e as principais refinarias exportadoras do Golfo ainda não haviam retomado carregamentos normais. O crude reapareceu primeiro; os produtos que abastecem caminhões, aviões, fábricas e consumidores ficaram para trás.

Essa diferença também limita o alcance de decisões da OPEP+. Aumentar uma meta de produção ajuda quando o barril adicional consegue chegar a uma refinaria operacional e sair dela como produto negociável. O artigo sobre a torneira da OPEP+ com pouca pressão já mostrava a distância entre cota anunciada e petróleo efetivamente entregue. Agora existe uma segunda distância, entre o petróleo entregue e o combustível disponível.

Refinar virou o recurso escasso

As refinarias globais processaram 1,5 milhão de barris por dia a mais em junho do que em maio, segundo a IEA. Mesmo com essa recuperação, o volume ficou 6 milhões de barris por dia abaixo do registrado um ano antes. Unidades do Oriente Médio ainda enfrentavam interrupções, refinarias russas sofriam com ataques ucranianos e parte da Ásia operava em ritmo reduzido.

O resultado apareceu nas margens. A IEA registrou cracks e margens de refino nas máximas de quatro anos no começo de julho, ainda durante um período em que o crude havia devolvido boa parte do prêmio de guerra. Depois, a retomada dos ataques pressionou simultaneamente o barril e os derivados.

Nos Estados Unidos, o crack 3-2-1, aproximação de quanto uma refinaria ganha ao transformar três barris de petróleo em dois de gasolina e um de diesel, chegou perto de US$ 70 por barril em 20 de julho, conforme dados compilados pela Reuters. No noroeste da Europa, a margem de referência se aproximou de US$ 30. O diesel europeu chegou a oferecer margem próxima de US$ 65 por barril.

Esses números não significam que toda refinaria esteja ganhando a mesma quantia. Qualidade do crude, configuração da unidade, localização, contratos, custo de energia e paradas operacionais produzem resultados diferentes. Eles mostram, ainda assim, onde o sistema está pagando pela capacidade disponível. O prêmio saiu parcialmente da extração e avançou para o processamento.

A rota de fuga perdeu a segurança

A logística ampliou esse desequilíbrio. Com Hormuz quase fechado, a Arábia Saudita passou a enviar perto de 5 milhões de barris por dia pela costa oeste, segundo estimativas citadas pela Reuters. Quatro quintos desse volume seguiam pelo estreito de Bab el-Mandeb, na entrada do Mar Vermelho. A rota que servia como alternativa ao Golfo passou a enfrentar ataques houthis contra petroleiros sauditas.

O desvio por fora da África tem custo mensurável. Uma viagem de Yanbu, na Arábia Saudita, até a China levava cerca de 19 dias via Bab el-Mandeb. Pelo Cabo da Boa Esperança, o trajeto sobe para aproximadamente 48 dias, de acordo com cálculos da Kpler e da LSEG publicados pela Reuters. O gasto estimado de combustível passa de US$ 1,26 milhão para US$ 2,87 milhões. A rota curta ainda exige perto de US$ 1 milhão em taxas de Suez, mas libera o navio quase um mês antes.

Tempo de viagem também é capacidade. Se cada petroleiro passa mais dias ocupado, menos embarcações ficam disponíveis para novas cargas. Seguros, tripulação, financiamento e capital de giro se acumulam durante o percurso. A tonelada de combustível entregue fica mais cara mesmo quando o número de barris produzidos não muda.

O ataque ao sistema do Caspian Pipeline Consortium, responsável por cerca de 2% da oferta global, acrescentou outra restrição no momento em que o Mar Vermelho já estava sob pressão. O mercado não precisa perder todo esse volume para reagir. Basta que refinarias e compradores disputem rotas, navios e derivados com menos folga.

As refinarias americanas operam quase sem folga

A indústria americana está tentando ocupar parte do espaço deixado pelo Golfo. Na semana encerrada em 17 de julho, as refinarias dos Estados Unidos operaram a 96,1% da capacidade, segundo a Energy Information Administration. É um nível elevado e coerente com o incentivo criado por cracks excepcionalmente altos.

A mesma fotografia mostra por que essa resposta ainda não tranquiliza o mercado. Os estoques comerciais de petróleo subiram 2 milhões de barris, para 411,7 milhões, mas permaneceram 6% abaixo da média dos cinco anos anteriores. Os estoques de gasolina estavam 7% abaixo da média e os de destilados, categoria que inclui diesel, 10% abaixo. A demanda por combustível de aviação avançou 9% em relação ao ano anterior.

Os Estados Unidos conseguem exportar parte do excedente produzido por suas refinarias, e essa flexibilidade ganhou importância com as perdas do Oriente Médio. Só que utilização próxima de 96% deixa menos espaço para elevar rapidamente o processamento. Uma parada não planejada durante o verão passa a ter efeito maior sobre preço e disponibilidade.

Também há uma tensão doméstica. Exportar ajuda a preencher o déficit global e sustenta a margem das refinarias, enquanto estoques americanos abaixo da média aumentam a sensibilidade do consumidor local. O país ganhou importância como fornecedor de produtos em um momento no qual sua própria margem de segurança nos estoques está reduzida.

A margem mudou de lado

O mercado acionário captou essa transferência antes que ela aparecesse por completo nos resultados. Valero, Marathon Petroleum e Phillips 66 subiram quando o Brent atravessou US$ 100 e os ataques no Mar Vermelho elevaram as expectativas para margens de refino, conforme relatou a Reuters. Empresas integradas, que combinam produção e refino, também recebem proteção parcial quando uma etapa da cadeia compensa a outra.

A leitura exige cuidado. Margem spot alta pode desaparecer antes do fechamento do trimestre. Refinarias consomem muito capital, enfrentam manutenção, risco regulatório e volatilidade no custo do crude. Além disso, a própria destruição de demanda reduz a duração do ganho.

A IEA estima que o consumo global de petróleo tenha recuado 4,8 milhões de barris por dia no segundo trimestre em relação ao ano anterior. A queda foi forte o bastante para levar a demanda ao fundo de 97,9 milhões de barris por dia em maio. Na China, o consumo de diesel caiu cerca de 10% em maio e o de gasolina, 5%. Na Europa, a demanda por diesel recuou 5,7%. O preço já estava mudando o comportamento de consumidores e empresas.

Para a análise setorial, importa reconhecer que a capacidade de processamento adquiriu, neste choque, poder de preço maior que a produção marginal de crude. Isso não garante ganhos permanentes às refinarias. Enquanto os derivados permanecerem apertados, porém, seus resultados e os custos dos compradores de combustível podem se distanciar do movimento isolado do Brent.

A conta chega a aéreas, moedas e juros

O consumidor desse combustível paga a outra ponta da margem. Companhias aéreas enfrentam querosene mais caro em um momento de demanda forte por viagens. Operadores logísticos repassam diesel e frete quando conseguem; quando não conseguem, absorvem a pressão na margem. Indústrias petroquímicas lidam com matérias-primas mais caras e disponibilidade menos previsível.

Países importadores de energia recebem o choque pelo balanço de pagamentos e pelo câmbio. A Índia foi um exemplo imediato em 24 de julho: ações recuaram, a rupia se aproximou de mínima histórica e a IndiGo, maior companhia aérea do país, reportou prejuízo trimestral associado à disparada do combustível e à incerteza no Oriente Médio. Exportadores de petróleo podem ganhar receita externa, embora o efeito fiscal e cambial dependa da capacidade de produção, dos subsídios domésticos e do regime de preços.

A transmissão para juros acontece quando o combustível deixa de ser uma alta breve e passa a contaminar frete, alimentos e expectativas. O resumo semanal de 19 de julho já havia mostrado o contraste entre a gasolina mais barata no CPI de junho e o Brent subindo novamente em julho. Com o barril agora acima de US$ 100 e os derivados avançando ainda mais, o alívio estatístico ficou mais antigo do que o choque corrente.

Na sexta-feira, bolsas asiáticas caíram, yields subiram e o mercado voltou a discutir altas de juros nos Estados Unidos. A curva não reage ao crack spread de forma mecânica, mas reage à possibilidade de que energia mais cara prolongue a inflação. Isso se soma ao prêmio de prazo que já aparecia nos Treasuries, tema analisado em a curva americana pediu prêmio de prazo.

Para a América Latina, a divisão entre produtores e importadores é apenas o começo. Petróleo caro pode melhorar termos de troca de alguns países e, ao mesmo tempo, encarecer diesel, transporte e fertilizantes. Bancos centrais precisam decidir quanto do choque atravessará preços administrados e expectativas. Empresas precisam avaliar se têm poder para repassar custo. O mesmo barril cria ganhadores e perdedores dentro de uma única economia.

O sinal que separa choque de energia de choque macro

O Brent continua sendo a referência mais visível, mas deixou de oferecer sozinho uma leitura suficiente. Se o preço do crude recuar enquanto cracks, diesel e frete permanecem altos, a normalização estará acontecendo apenas na entrada da cadeia. Refinarias ainda terão poder de preço e compradores de combustível continuarão expostos.

Uma melhora mais ampla exigiria convergência. Fluxos por Hormuz e Bab el-Mandeb precisariam se estabilizar, refinarias do Golfo voltar a carregar derivados, estoques de gasolina e destilados recuperar folga e margens sair das máximas. Nesse cenário, o barril poderia cair junto com o custo efetivo de energia e devolver espaço aos bancos centrais.

O risco oposto é o choque sair do mercado de petróleo e entrar no resto da economia. Margens de refino elevadas por mais tempo pressionam companhias aéreas, transporte e indústria. Fretes longos imobilizam navios e capital. Estoques baixos deixam o sistema vulnerável a novas paradas. A inflação de energia passa então a depender menos de uma manchete sobre produção e mais da capacidade física de entregar combustível.

O Brent acima de US$ 100 chama atenção porque cabe em uma tela. A informação mais importante está na distância entre esse preço e o dos derivados. Foi ali que a guerra, os ataques e as rotas bloqueadas concentraram a escassez. Enquanto essa distância continuar aberta, o mercado estará pagando mais pela refinaria do que pelo barril adicional.

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