O café bate recorde em 2026, mas o risco está na próxima florada
O Brasil pode colher café como nunca em 2026. O investidor que transformar esse recorde em promessa de oferta folgada, porém, corre o risco de olhar para a safra errada.
Em 13 de julho de 2026, a Reuters informou que a Conab projeta 66,7 milhões de sacas de 60 quilos de arábica e canephora, volume recorde para a série da estatal. No mesmo dia, a Associação Brasileira da Indústria de Café, a Abic, alertou que calor excessivo e chuva irregular podem provocar perda de 15% a 20% em um cenário adverso de El Niño.
Os dois números parecem incompatíveis apenas à primeira vista. A colheita de 2026 foi formada por condições anteriores e já está em andamento. O risco que cresce agora está na florada do segundo semestre, na formação dos grãos e na oferta que chegará ao mercado depois.
O café pode entregar recorde hoje e aperto amanhã.
a safra grande veio de um ciclo favorável
A estimativa da Conab não apareceu por acaso. O relatório anual do USDA para o Brasil, publicado em 1º de junho de 2026, descreveu um ano favorável para o arábica, beneficiado pela bienalidade positiva, pela entrada de novas áreas em produção e por manejo melhor nas fazendas.
As projeções variam conforme a metodologia. A Conab estima 66,7 milhões de sacas. O USDA Brasília trabalha com 71,9 milhões para 2026/27, alta de 14% sobre a temporada anterior, enquanto o IBGE aparece perto de 65,1 milhões. Mesmo com a diferença, as três leituras apontam para uma colheita grande.
Esse volume ajuda a reconstruir estoques e aumenta a capacidade de exportação. O USDA projeta 49,07 milhões de sacas exportadas em 2026/27, cerca de 30% acima da estimativa revisada para a temporada anterior.
A oferta maior também cria pressão para que o preço ao consumidor finalmente perca parte da inflação acumulada. Só que a transmissão não é imediata. Estoques globais ainda apertados, custos de diesel, fertilizante, frete e mão de obra mantêm um piso alto, segundo o relatório do USDA.
A experiência do petróleo com a OPEP+ oferece uma comparação útil. Anunciar ou projetar mais oferta não garante alívio linear quando capacidade, estoque e risco futuro continuam limitando o mercado.
o El Niño chegou antes da próxima florada
A NOAA publicou em 9 de julho de 2026 um alerta que elevou o peso desse risco. O órgão americano vê 97% de chance de o El Niño persistir até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte e 81% de chance de o evento atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026.
Esse calendário cruza justamente uma etapa sensível do café brasileiro. A florada do segundo semestre depende de uma combinação estreita de chuva, temperatura e regularidade. Calor excessivo pode reduzir o pegamento das flores, enquanto chuva fora de hora produz maturação desigual, piora qualidade e torna a colheita mais cara.
A Reuters relatou em 13 de julho que produtores de arábica no Sudeste já enfrentaram chuva superior a 50 milímetros cerca de 40 dias antes, atrasando a colheita, derrubando frutos e prejudicando qualidade em algumas áreas. No Espírito Santo, maior produtor de canephora, cooperativas temem períodos mais longos de seca e calor até janeiro de 2027.
A temperatura pesa tanto quanto a água. Luiz Carlos Bastianello, presidente da Cooabriel, afirmou à Reuters que o metabolismo do canephora desacelera acima de 27 graus Celsius e para em 35 graus. Irrigação ajuda a planta a atravessar seca, mas não elimina o dano de calor extremo.
Por isso, o número de 15% a 20% citado pela Abic deve ser tratado como risco, não como previsão fechada. A safra seguinte ainda será decidida no campo. O mercado precisa acompanhar a qualidade da florada e o enchimento dos grãos antes de converter o alerta em déficit efetivo.
tecnologia reduz a perda, mas não apaga o clima
A agricultura brasileira está mais protegida do que no El Niño anterior. Produtores ampliaram irrigação, melhoraram plantio e colheita e, em algumas regiões de robusta, instalaram sistemas de resfriamento por água.
Rondônia mostra o outro lado da história. Agricultores do estado esperam colher 3 milhões de sacas em 2026, acima dos 2,77 milhões projetados pela Conab, apoiados por irrigação e condições mais próximas da normalidade. Essa resistência impede uma leitura simplista em que todo El Niño produz a mesma perda em todas as regiões.
O arábica do Sudeste, no entanto, continua mais exposto. Muitas propriedades ainda não têm irrigação, e a qualidade depende de uma sequência climática que tecnologia apenas consegue amortecer. A última passagem do fenômeno serve de aviso: a estimativa inicial para 2024 era de 58,8 milhões de sacas, mas a produção terminou em 54,2 milhões, segundo dados citados pela Reuters em 13 de julho.
Naquele ciclo, o arábica estava em ano de bienalidade positiva e cresceu apenas 0,2%. A produtividade do conilon caiu 5,9%. O problema não foi falta completa de capacidade produtiva, e sim a combinação de ondas de calor e chuva irregular sobre uma cultura sensível ao calendário.
Essa assimetria interessa ao investidor. Irrigação reduz a chance de desastre, mas também aumenta custo fixo, demanda por energia e necessidade de capital. A fazenda fica mais resiliente e, ao mesmo tempo, mais dependente de investimento para continuar competitiva.
o choque pode sair da xícara e chegar aos juros
Café é uma commodity agrícola, mas o efeito não termina no contrato futuro. O Brasil é o maior produtor e exportador global, e uma perda relevante altera preço de exportação, margem de torrefadoras, custo de alimentos e percepção de inflação.
Em 24 de junho de 2026, a Reuters publicou os resultados de uma pesquisa do Banco Central com quase 100 economistas. A mediana estimou que o El Niño poderia adicionar 0,30 ponto percentual à inflação brasileira de 2026 e 0,40 ponto em 2027. Os entrevistados acreditavam que apenas dois terços do impacto de 2026 e metade do efeito de 2027 estavam incorporados às projeções.
O café não carrega essa conta sozinho. Açúcar, cítricos e outras culturas também podem sofrer conforme o padrão de chuva se desloca. Ainda assim, o grão funciona como um termômetro visível porque o Brasil domina a oferta global e o consumidor percebe reajustes rapidamente.
Esse canal complica a política monetária. Um choque climático começa como problema de oferta, mas pode contaminar expectativas, serviços e salários se durar. A mesma lógica explicada na análise sobre a inflação americana antes do CPI vale aqui: banco central não controla clima, mas precisa reagir se o choque deixa de ser temporário e se espalha pelo índice.
Para o câmbio, há duas forças. Café mais caro aumenta receita de exportação por saca e pode ajudar o fluxo comercial. Uma safra menor, por outro lado, reduz volume exportável e piora a inflação doméstica. Se o choque empurra juros para cima ou interrompe cortes, o efeito sobre a moeda passa a depender da credibilidade fiscal e monetária, não apenas do valor exportado.
quem ganha e quem paga
Um aperto de oferta tende a beneficiar produtores que preservarem volume e qualidade. Eles conseguem vender a preço mais alto em um mercado menos abastecido. Exportadores com estoque também ganham opção de esperar melhor momento de venda.
A conta fica mais pesada para torrefadoras, redes de café e empresas de alimentos que não conseguem repassar custo rapidamente. O consumidor pode trocar arábica por blends com mais robusta, reduzir consumo fora de casa ou buscar marcas mais baratas. A elasticidade aparece primeiro na mistura, depois no volume.
O investidor também precisa separar preço em dólar de preço local. Como mostrou a análise sobre o dólar cobrando aluguel do mundo, uma commodity pode subir enquanto a moeda de um país produtor altera parte do ganho ou da perda. Café em alta com real forte produz uma margem diferente de café em alta com real fraco.
A comparação com ouro e curva de juros reforça outro ponto. Commodities não negociam apenas fundamento físico. Elas respondem a dólar, custo de carrego, posição especulativa e percepção de risco. No café, o clima adiciona uma variável que o banco central não consegue fabricar e o produtor não consegue corrigir depois da florada.
o sinal para o investidor
A safra recorde de 2026 é real. Também é real que ela pertence a um ciclo formado antes de o El Niño ganhar a intensidade agora prevista pela NOAA.
O erro seria usar a colheita atual como prova de que o mercado entrou em abundância permanente. Entre outubro e dezembro, a florada vai mostrar quanto da resiliência construída com irrigação, manejo e tecnologia consegue compensar um evento climático potencialmente muito forte.
Até lá, três indicadores merecem atenção: chuva nas regiões de arábica, temperatura nas áreas de canephora e qualidade da florada. Se os três piorarem juntos, a oferta de 2027 perde folga e a inflação de alimentos ganha outra fonte de pressão.
O recorde de hoje compra tempo. Não compra garantia para a próxima safra.
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