Em 30 segundos
- O dólar representava 57,13% das reservas cambiais no primeiro trimestre de 2026, mas seguia em um dos lados de aproximadamente 89,1% das operações globais de câmbio e sustentava US$ 14,7 trilhões em crédito fora dos Estados Unidos.
- Stablecoins em dólar somavam cerca de US$ 305 bilhões. No fim de 2025, seus emissores tinham US$ 153 bilhões em títulos curtos do Tesouro americano.
- A mudança favorece quem emite, guarda e transfere dólares digitais. Também pressiona bancos e empresas de pagamentos e pode facilitar a troca da moeda local pelo dólar.
Quando se fala em desdolarização, ou redução da dependência do dólar, a conversa quase sempre começa nas reservas dos bancos centrais. A fatia da moeda americana caiu em relação ao início do século, vários países compraram ouro e alguns governos passaram a buscar outras formas de fazer comércio.
Esse retrato é verdadeiro, mas incompleto. O dólar também domina os empréstimos internacionais, o mercado de câmbio e boa parte das transações entre países. Agora ele ganhou uma nova porta de entrada: as stablecoins.
Uma stablecoin é um token digital que tenta manter o valor de US$ 1. Ela pode ser guardada em uma carteira digital e transferida a qualquer hora. Para emitir esse token, a empresa recebe dinheiro e monta uma reserva. Essa reserva costuma incluir caixa, depósitos bancários e títulos de curto prazo do Tesouro dos Estados Unidos.
A tecnologia muda a forma de acesso, não a moeda por trás dela. Um usuário pode mover dólares sem abrir uma conta bancária americana, mas continua dependendo do emissor, dos bancos que guardam a reserva e das regras dos Estados Unidos.
Para o investidor, a pergunta central não é quando o dólar deixará de ser a principal moeda de reserva. É outra: quem ganha quando o dólar passa a circular como software, quais ativos recebem esse dinheiro e onde surgem os novos riscos?
As reservas contam apenas parte da história
O FMI registrou US$ 13,10 trilhões em reservas cambiais no primeiro trimestre de 2026. O dólar representava 57,13% do total, acima dos 56,42% do trimestre anterior. Cerca de metade dessa alta veio da valorização da própria moeda, não de novas compras pelos bancos centrais.
A participação do dólar nas reservas caiu ao longo de duas décadas. Isso mostra que os bancos centrais estão diversificando. Ainda assim, a moeda americana continua muito à frente das demais.
No mercado de câmbio, a presença é ainda maior. Nos dados finais da pesquisa do BIS, o dólar aparecia em um dos lados de aproximadamente 89,1% das operações globais em abril de 2025. Cada operação envolve duas moedas, por isso as participações somam 200%. Na prática, o dólar funciona como a ponte mais usada para trocar uma moeda por outra.
A dívida também prende o mundo ao dólar. Empresas, governos e instituições financeiras fora dos Estados Unidos deviam US$ 14,7 trilhões na moeda americana no fim de março de 2026. Esse valor cresceu 7,3% em um ano. Cerca de 30% do total estava ligado a tomadores de economias emergentes e em desenvolvimento. Quem deve em dólar precisa comprá-lo para pagar juros, quitar a dívida ou renovar o empréstimo.
Essa dependência ajuda a explicar por que o dólar voltou a cobrar aluguel do mundo. Quando a moeda e os juros americanos sobem, o custo aparece nas contas de empresas, governos e países que tomaram empréstimos em dólar.
As stablecoins ainda são pequenas perto desse mercado. No corte deste dossiê, a DefiLlama registrava cerca de US$ 305 bilhões em tokens ligados ao dólar. Isso equivale a pouco mais de 2% da dívida em dólar fora dos Estados Unidos.
| Onde o dólar aparece | Medida mais recente | O que isso significa |
|---|---|---|
| Reservas dos bancos centrais | 57,13% de US$ 13,10 trilhões | ainda é a principal moeda de proteção oficial |
| Mercado de câmbio | cerca de 89,1% das operações | é a ponte mais usada entre moedas |
| Dívida fora dos EUA | US$ 14,7 trilhões | devedores precisarão de dólares no futuro |
| Stablecoins em dólar | cerca de US$ 305 bilhões | o dólar chegou às carteiras digitais |
A mudança importante está na distribuição. O dólar pode perder espaço nas reservas oficiais e, ao mesmo tempo, ganhar usuários entre famílias e empresas. Um banco central compra reservas para proteger o país. Uma pessoa compra uma stablecoin para guardar valor, enviar dinheiro ou fugir de uma moeda local fraca.
O dinheiro do token termina em títulos do Tesouro
Uma stablecoin não é um novo dólar criado pelo Federal Reserve. O usuário entrega dinheiro ao emissor e recebe um token que promete valer US$ 1. O emissor precisa guardar ativos seguros para honrar os pedidos de resgate.
Nos Estados Unidos, o GENIUS Act exige uma reserva de um para um. A lei permite caixa, depósitos, fundos de curto prazo, empréstimos garantidos por Treasuries e títulos do Tesouro com vencimento de até 93 dias. Esses títulos curtos são chamados de T-bills.
| Etapa | O que acontece | Por que importa |
|---|---|---|
| Compra | o usuário entrega dinheiro ao emissor | nasce um token de US$ 1 |
| Reserva | o emissor compra ativos seguros | o token pode ser resgatado |
| Uso | o token passa de uma carteira para outra | o dólar circula 24 horas por dia |
| Resgate | o emissor devolve o dinheiro | as reservas diminuem |
Esse processo já tem peso no mercado. Um estudo do BIS atualizado em junho de 2026 calculou que as stablecoins em dólar tinham mais de US$ 270 bilhões em ativos no fim de 2025. Desse total, US$ 153 bilhões estavam ligados a T-bills. Os emissores compraram cerca de US$ 33 bilhões desses títulos durante o ano.
O número é relevante, mas precisa ser colocado em escala. O comitê que aconselha o Tesouro americano estimou que os emissores ainda tinham menos de 1% de todos os Treasuries em circulação. Eles não financiam sozinhos o governo americano.
Também importa saber de onde veio o dinheiro. Se uma família que guardava pesos ou reais compra uma stablecoin, o emissor pode criar procura nova por T-bills. Se um investidor tira dinheiro de um fundo que já comprava esses mesmos títulos, quase nada muda para o Tesouro. Troca apenas a empresa que guarda o ativo e fica com a receita.
Por isso, stablecoins ajudam sobretudo os títulos de prazo curto. Elas não resolvem a procura por Treasuries de dez ou trinta anos. A análise do LATAM Alpha sobre a dependência dos Estados Unidos de investidores privados continua válida.
As compras já mexem com os juros de curto prazo
O BIS encontrou uma ligação entre entradas em stablecoins e os juros dos T-bills. O estudo analisou dados diários de janeiro de 2021 a março de 2026 e tentou separar esse efeito das mudanças gerais em cripto, bolsa e dólar.
Quando US$ 3,5 bilhões entraram nas stablecoins ao longo de cinco dias, a taxa do T-bill de três meses caiu 0,71 ponto-base no primeiro momento e até 4 pontos-base depois de dez dias. Um ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual. A queda apareceu nos títulos de um e três meses, mas quase não chegou aos vencimentos mais longos.
O efeito foi maior em períodos de pouca liquidez. Nesses momentos, bancos e corretoras tinham menos espaço para atender compradores e vendedores. A mesma entrada de dinheiro foi associada a uma queda de 8 a 10 pontos-base na taxa de três meses.
| Situação | Mudança estimada | Como ler o dado |
|---|---|---|
| Entrada de US$ 3,5 bilhões | queda de 0,71 ponto-base no início e de até 4 em dez dias | efeito no T-bill de três meses |
| Mercado com pouca liquidez | queda de 8 a 10 pontos-base | impacto maior quando há menos compradores e vendedores |
| Títulos mais longos | pouca ou nenhuma resposta consistente | stablecoins não comandam toda a curva de juros |
O movimento também pode se inverter. Enquanto o mercado cresce, os emissores compram títulos. Se muitos usuários pedirem resgate ao mesmo tempo, os emissores podem precisar vender. Uma corrida nas stablecoins levaria pressão da cripto para o mercado de títulos curtos justamente em um momento de medo.
Para o investidor, a conclusão é simples. O crescimento das stablecoins favorece T-bills e empresas que negociam ou guardam esses ativos. Isso não garante uma queda permanente dos juros americanos. As decisões do Fed e a quantidade de títulos emitidos pelo Tesouro continuam muito mais importantes.
Bancos e empresas de pagamentos entram na disputa
Enviar dinheiro entre países ainda costuma envolver vários bancos, conversão de moedas e controles contra fraude e sanções. Uma nota do Federal Reserve mostrou que mais de 60% dos pagamentos de grande valor passam por pelo menos um intermediário. O número de bancos correspondentes caiu cerca de 30% na década até 2022.
Uma stablecoin pode encurtar esse caminho porque duas instituições conseguem transferir o mesmo token diretamente. Ela não elimina impostos, regras, sanções ou a necessidade de converter o dinheiro para a moeda local. Ainda assim, pode reduzir etapas, custos e horários de espera.
Um estudo do FMI analisou como as ações de empresas de pagamentos reagiram ao GENIUS Act. Depois de considerar que parte da notícia já era esperada, os autores estimaram uma redução de 18%, ou cerca de US$ 300 bilhões, no valor dessas empresas. O efeito foi maior entre companhias muito dependentes de pagamentos internacionais.
Esse número não representa US$ 300 bilhões perdidos em um único pregão. É uma estimativa do efeito completo da nova lei. A mensagem é mais simples do que a cifra: empresas que ganham dinheiro porque uma transferência internacional é longa e cara enfrentam mais pressão. Redes amplamente aceitas e capazes de oferecer stablecoins podem se adaptar.
Os bancos também podem perder depósitos. Um cliente pode tirar dinheiro da conta e colocá-lo em uma stablecoin. Mas a história mostra que os bancos reagem. O Fed lembrou que eles criaram novos produtos quando os fundos de curto prazo e o PayPal cresceram.
Uma resposta já está em desenvolvimento: os depósitos tokenizados. Eles são depósitos bancários comuns representados em uma rede digital. Assim, o cliente pode transferir o dinheiro com mais rapidez sem sair do banco.
Há ainda uma disputa pela receita dos juros. Stablecoins de pagamento não podem pagar juros diretamente ao usuário sob o GENIUS Act. O emissor recebe o rendimento dos T-bills que sustentam o token. Se o Fed mantém juros altos, essa receita cresce. Se corta juros, ela diminui. Bancos podem disputar esse mercado com depósitos digitais, guarda de ativos e serviços de conversão.
Na América Latina, o principal uso pode ser guardar dólares
Na região, o uso mais importante talvez não seja pagar um café. Pode ser guardar parte da renda em dólar, enviar dinheiro para outro país ou movimentar recursos quando os bancos estão fechados.
A análise do LATAM Alpha sobre o balanço da Tether mostrou o tamanho da estrutura que sustenta o USDT. Para o usuário, porém, a experiência é simples: um saldo em dólar dentro do celular, sem uma conta nos Estados Unidos.
Isso não significa que todo volume em blockchain seja pagamento. O BIS estimou que as transações mais próximas de compras reais somavam cerca de US$ 390 bilhões por ano. Esse valor era inferior a 1% do total bruto registrado nas redes. O restante inclui negociação, transferências entre carteiras da mesma empresa e operações automáticas.
A função de poupança pode crescer antes do uso no comércio. Em países com inflação alta ou dificuldade para abrir uma conta em dólar, a stablecoin facilita a troca da moeda local pela americana. Isso pode ajudar a proteger a poupança contra a perda de valor da moeda local. Se esse uso crescer, pode reduzir o controle do banco central sobre o dinheiro que circula no país.
O dólar digital também continua sujeito ao poder dos Estados Unidos. Os emissores podem bloquear endereços sancionados e precisam manter reservas em instituições autorizadas. O token circula em blockchain, mas sua conversão para dinheiro depende de empresas, bancos e leis. O dólar virou software sem deixar de ser uma ferramenta geopolítica.
Reservas seguras não eliminam todos os riscos
Uma stablecoin pode ter bons ativos e ainda enfrentar problemas. Um estudo do Federal Reserve mostrou que redes congestionadas e taxas altas podem provocar resgates mesmo quando o emissor tem dinheiro suficiente. O problema pode estar na rede usada para movimentar o token.
A concentração aumenta o risco. No corte deste dossiê, USDT e USDC representavam cerca de 84% das stablecoins em dólar. Uma falha em um grande emissor atingiria muito mais gente do que o problema em uma fintech pequena.
Também há riscos na passagem de uma blockchain para outra. Essas transferências dependem de pontes e empresas que oferecem liquidez. Se uma delas falhar, um token que vale US$ 1 em uma rede pode ser negociado por menos em outra.
Existe ainda uma diferença de horários. Stablecoins circulam 24 horas por dia, mas o mercado dos ativos usados como reserva não funciona o tempo todo. Se muita gente pedir resgate durante um fim de semana, o emissor precisa usar o caixa disponível ou esperar o mercado abrir para vender títulos.
O BIS prefere uma estrutura baseada em depósitos digitais de bancos e dinheiro emitido por bancos centrais. Em uma crise, o banco central pode emprestar aos bancos e ajudar a manter todas as formas de dinheiro com o mesmo valor. Stablecoins oferecem acesso mais aberto, mas deixam decisões importantes nas mãos de empresas privadas.
O que confirma ou enfraquece a tese
A tese ganha força quando stablecoins atraem pessoas e empresas que antes não guardavam dólares. Nesse caso, a moeda americana conquista novos usuários, os emissores compram mais T-bills e cresce a procura por empresas que guardam e transferem esses ativos.
Ela perde força se o dinheiro apenas sair de um fundo em dólar para entrar em um token em dólar. Nesse caso, quase não há procura nova por títulos do Tesouro. Muda apenas quem guarda o ativo e quem fica com a receita. Bancos também podem recuperar clientes com seus próprios depósitos digitais.
A tese enfraquece ainda mais se stablecoins em euro, renminbi ou moedas locais ganharem espaço, se governos fecharem o acesso internacional ou se os tokens continuarem presos à negociação de cripto.
| Área afetada | Efeito mais provável | O que acompanhar |
|---|---|---|
| Títulos curtos do Tesouro | procura adicional | compras feitas com dinheiro novo vindo de fora do dólar |
| Emissores de stablecoins | receita com os juros das reservas | crescimento sem perda do valor de US$ 1 |
| Bancos | saída de parte dos depósitos | adoção de depósitos digitais e serviços de guarda |
| Pagamentos internacionais | pressão sobre taxas e margens | perda real de volume para stablecoins |
| Moedas emergentes | acesso mais fácil ao dólar | aumento do uso para poupança e pagamentos locais |
| Treasuries de longo prazo | benefício pequeno | falta de efeito nos vencimentos maiores |
O tamanho do mercado, sozinho, não conta toda a história. A origem do dinheiro é mais importante. Um novo dólar vindo de uma família ou empresa que antes estava fora da moeda americana amplia a rede. Um dólar que sai de uma conta e entra em um token muda a empresa que presta o serviço, mas não aumenta necessariamente a procura total pela moeda.
Por isso, a queda da fatia do dólar nas reservas oficiais pode conviver com mais empréstimos, poupança e pagamentos em dólar. Países podem reduzir a dependência de Washington em seus cofres enquanto famílias e empresas adotam uma versão mais acessível da moeda americana.
O dólar não precisa recuperar cada ponto perdido nas reservas dos bancos centrais para manter sua força. Se continuar sendo a moeda mais usada pelo software para guardar e transferir valor, sua influência apenas muda de lugar. Uma parte sai dos cofres oficiais e entra nas carteiras digitais e nos títulos curtos do Tesouro.
Essa expansão torna o dólar mais fácil de usar. Também torna a confiança em emissores, bancos e redes digitais mais importante. O teste virá no próximo período de estresse, quando milhões de usuários quiserem transformar seus tokens em dinheiro ao mesmo tempo.