Os bancos argentinos estão testando blockchain do JPMorgan enquanto o governo proíbe cripto para clientes

Os bancos argentinos estão testando blockchain do JPMorgan enquanto o governo proíbe cripto para clientes

O Banco Central da Argentina proíbe bancos de oferecer cripto para clientes. Ao mesmo tempo, o Banco CMF está testando JPM Coin no blockchain Base para liquidações interbancárias.

Isso não é contradição. É como a regulação financeira funciona na prática: a porta dos fundos abre enquanto a da frente ainda está trancada.

O que está acontecendo

Segundo o Ledger Insights, uma unidade do Banco CMF chamada QORP está pilotando o JPM Coin - o token de depósito do JPMorgan rodando na blockchain Base - para acelerar liquidações entre bancos. Banco Galicia, BIND e Comafi também estão sendo avaliados para participar.

Os detalhes técnicos importam: por enquanto, nenhum dinheiro real está sendo movimentado na blockchain. Os bancos usam o sistema para registrar e reconciliar transações, com a liquidação final acontecendo pelos trilhos tradicionais. É blockchain como banco de dados auditável, não como rede de pagamentos.

Mas o sinal é claro. As maiores instituições financeiras da Argentina estão aprendendo a operar em infraestrutura blockchain antes que as regras mudem.

Por que o BCRA permite isso

A resolução atual do Banco Central proíbe bancos de oferecer "criptoativos" para clientes de varejo. JPM Coin não se enquadra nessa definição - é um token de depósito institucional, emitido pelo JPMorgan, usado para liquidações interbancárias. Juridicamente, é diferente de um banco vendendo Bitcoin.

Mais importante: o próprio BCRA está revisando a proibição. O banco central argentino reconhece que a demanda por stablecoins no país é orgânica e estrutural. Com inflação de 211% em 2024 e uma desvalorização de 95% do peso frente ao dólar desde 2018, os argentinos não usam cripto por especulação. Usam para sobreviver financeiramente.

A pressão para regularizar é grande demais para ignorar.

O contexto que explica tudo

A Argentina é o segundo país da América Latina em volume cripto recebido, atrás só do Brasil, e ocupa a 18ª posição no ranking global de adoção da TRM Labs. Essa posição não foi construída por especuladores - foi construída por trabalhadores autônomos recebendo em USDT, empresas pagando fornecedores em USDC, e famílias guardando economias em dólar digital.

O sistema bancário formal ficou para trás. Agora está correndo para recuperar o terreno.

O que o resto da LATAM pode aprender

O padrão argentino se repete em graus diferentes em todo o continente: a adoção acontece primeiro, a regulação vem depois tentando enquadrar algo que já é realidade.

Brasil acelerou: as resoluções do Banco Central de novembro de 2025, vigentes desde fevereiro de 2026, obrigam VASPs a cumprir AML/CFT, manter capital mínimo e reportar operações. O México avança com reformas AML e estuda ampliar as licenças FinTech para cripto.

A diferença da Argentina é a velocidade da contradição: banco central proibindo pela porta da frente enquanto bancos testam blockchain pela dos fundos.

Quando a proibição cair - e as chances de que caia são altas - os bancos que estão testando JPM Coin hoje terão meses de vantagem operacional sobre os que ficaram esperando permissão.


Dados: Ledger Insights (7 de abril de 2026), TRM Labs Crypto Crime Report 2026, Chainalysis LATAM Report.

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