Macroeconomia Resumo semanal

Resumo Semanal: o recorde do S&P 500 tem pouco espaço para erro

A contratação enfraqueceu enquanto os lucros superavam estimativas. Inflação e consumo agora testam o recorde do S&P 500.

Resumo Semanal: o recorde do S&P 500 tem pouco espaço para erro

Em 30 segundos

  • Os Estados Unidos perderam 23 mil empregos em julho, mas o S&P 500 ganhou 3,58% na semana e fechou em recorde.
  • Juros curtos menores e lucros acima das estimativas sustentaram a combinação; os dados não isolam quanto o emprego mais fraco já afetou os resultados.
  • O índice de preços ao consumidor (CPI) e as vendas no varejo medirão os dois limites do rali: inflação e demanda.

Os Estados Unidos perderam empregos em julho. Ao mesmo tempo, 85,1% das empresas do S&P 500 que já haviam divulgado balanços superaram as estimativas de lucro. O índice fechou em recorde. A diferença entre um mercado de trabalho mais fraco e resultados ainda resistentes definiu a semana.

Os juros curtos cederam porque o Federal Reserve ganhou motivo para esperar antes de uma nova alta. Esse apoio à bolsa diminui se a inflação exigir juros maiores ou se a contratação mais fraca atingir consumo, receita e projeções de lucro. O índice de preços ao consumidor (CPI) e as vendas no varejo medirão esses dois limites na próxima semana.

S&P em recorde, juros curtos e dólar em queda

O S&P 500 encerrou a sexta-feira em 7.757,64 pontos, recorde de fechamento, e acumulou alta semanal de 3,58%. O Nasdaq ganhou 5,19% e o Dow Jones, 2,96%. Os três índices tiveram o melhor desempenho semanal desde abril.

A sessão recebeu apoio de mais de um fator. O payroll reduziu a expectativa de alta do Fed. A temporada de balanços continuou forte. Petróleo mais barato e o interesse por empresas ligadas à inteligência artificial também contribuíram.

Referência Leitura de sexta-feira Contexto
S&P 500 +3,58% na semana Recorde de fechamento
Treasury de 2 anos 4,19% Queda de 6 pontos-base no dia
Treasury de 10 anos 4,65% Queda de 4 pontos-base no dia
Índice do dólar 99,50 Recuo de 0,44% na leitura final da Reuters
Ouro Mais de +7% na semana Apoio de juros reais e dólar mais baixos

A curva oficial do Tesouro americano mostra que o vencimento de 2 anos, mais sensível à política monetária, terminou a sexta-feira em 4,19%. A taxa de 10 anos ficou em 4,65%. A queda dos juros reduziu a taxa usada pelo mercado para trazer lucros futuros a valor presente, o que favorece empresas cujo valor depende mais de resultados distantes.

O ouro subiu por outro caminho. A queda dos juros depois de descontada a inflação esperada e o dólar mais fraco reduziram o custo de carregar o metal. O risco geopolítico continuou presente. Nas ações, a taxa de desconto menor se somou aos lucros, à IA e ao petróleo mais barato. O mesmo movimento de juros ajudou os dois ativos, mas não explica sozinho a alta de nenhum deles.

O emprego caiu; os lucros superaram estimativas

O Bureau of Labor Statistics informou que o payroll, relatório mensal de emprego, caiu 23 mil em julho. O consenso reunido pela Reuters esperava aumento de 80 mil. Maio e junho foram revisados para baixo em 103 mil vagas no total, e a média dos últimos três meses caiu para 20 mil.

A taxa de desemprego recuou de 4,2% para 4,1%, mas a força de trabalho encolheu em 264 mil pessoas. Os salários médios por hora avançaram 3,2% em 12 meses, abaixo dos 3,4% de junho. O setor privado ainda adicionou 30 mil vagas, o que afasta uma leitura de paralisação geral, mas contratação e salários perderam força.

O mercado reduziu a probabilidade de uma alta do Fed em setembro para 44% na sexta-feira. O dado tornou a espera mais provável, sem criar espaço automático para corte. O Fed manteve a taxa entre 3,50% e 3,75% em julho, e três dirigentes defenderam uma alta de 0,25 ponto percentual. O índice de preços de gastos com consumo, medida preferida do banco central, ainda acumulava 3,7% em 12 meses em junho. Nossa análise sobre o payroll detalha essa mudança na precificação.

A queda dos juros não basta para explicar o recorde. Entre as 436 empresas do S&P 500 que haviam divulgado resultados até sexta-feira, 85,1% superaram as estimativas de lucro, segundo a LSEG. A média histórica desde 1994 é de 68%. Os balanços deram ao mercado uma ponte entre atividade mais fraca e resultados ainda firmes.

Sinal Leitura O que mostra
Payroll de julho -23 mil vagas A contratação já perdeu força
Revisões de maio e junho -103 mil vagas A desaceleração começou antes de julho
Empresas acima da estimativa de lucro 85,1% de 436 A maioria superou o consenso; o dado não isola o efeito do emprego

No segundo trimestre, a produtividade do setor empresarial não agrícola cresceu 1,4%, e o custo unitário do trabalho subiu 1,3%, em taxas anualizadas. Esses números não medem diretamente as margens das empresas do S&P 500. Mostram apenas que, no agregado do setor empresarial não agrícola, o custo por unidade produzida avançou em ritmo moderado no trimestre.

Fundos globais de ações receberam US$ 21,15 bilhões na semana encerrada em 5 de agosto, a 11ª entrada consecutiva. Fundos dos Estados Unidos registraram saída de US$ 1,58 bilhão, enquanto Europa e Ásia captaram recursos. Fundos globais de títulos receberam mais US$ 12,27 bilhões. Os dados mostram demanda agregada por ações e renda fixa, mas não revelam a motivação dos compradores nem se foram as mesmas carteiras.

Brent recuou; frete e seguro ainda não normalizaram

O Brent perdeu mais de 8% na semana, e o WTI caiu mais de 7%. Sinais de negociação entre Estados Unidos, Irã e Omã reduziram o prêmio de guerra. Na sexta-feira, porém, o Brent reagiu 1,3% e fechou a US$ 83,55 por barril. O WTI terminou em US$ 78,18.

A queda do petróleo reduziu a pressão prospectiva sobre inflação e expectativas. Gasolina, transporte e frete não respondem todos no mesmo dia, e ainda não havia um CPI ou PCE posterior ao movimento. O alívio depende de o preço permanecer mais baixo e de os custos logísticos também recuarem.

A reabertura plena do Estreito de Hormuz ainda não foi acertada. No sábado, os Emirados Árabes Unidos disseram que um navio da ADNOC foi atingido por um míssil ao atravessar o estreito; não houve feridos. Irã e Omã relataram avanço nas conversas, mas Teerã afirmou que isso não significava reabertura e condicionou a passagem a novas exigências e compensações. Antes do conflito, a rota recebia cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo. Tarifas propostas, restrições a determinados navios, sanções e cláusulas de seguro continuam dificultando um acordo comercialmente viável. Nossa análise sobre o seguro em Hormuz mostra por que o barril pode cair antes do custo efetivo de transporte.

Uma ruptura das negociações tenderia a elevar petróleo e inflação esperada. O efeito sobre os juros nominais longos dependeria do equilíbrio entre o choque inflacionário e a procura por segurança. Companhias aéreas, transportadoras e importadores de energia continuam expostos aos dois lados dessa combinação: preço do barril e custo efetivo de entrega.

A América Latina recebe efeitos opostos

Dólar e petróleo mais baixos podem aliviar inflação, dívida externa e ativos de prazo longo em parte da América Latina. Empresas com dívida em dólar pagam menos em moeda local quando a divisa americana recua, desde que a desaceleração dos Estados Unidos não reduza suas receitas.

A energia divide a região. Países importadores recebem ajuda em preços e contas externas. Produtores e economias exportadoras perdem receita quando o Brent cai. Mesmo dentro de um país, companhias aéreas e empresas de transporte podem ganhar enquanto produtores de petróleo perdem preço e margem.

O ouro em alta também importa para exportadores do metal e moedas ligadas a commodities, mas o efeito não é automático. Juros americanos menores favorecem fluxos para mercados emergentes; crescimento americano mais fraco pode reduzir demanda por exportações. O resultado depende de qual força domina em cada economia.

O Japão permanece como alerta cambial. A intervenção coordenada comprou tempo para o iene, como mostrou nossa análise, mas não eliminou a diferença de juros nem a pressão sobre os títulos japoneses. Para a América Latina, o paralelo é simples: reservas podem conter movimentos desordenados, porém não substituem inflação controlada, contas externas sustentáveis e credibilidade monetária.

Próxima semana: inflação mede preços; varejo mede demanda

O cenário-base é de Fed parado em setembro, petróleo abaixo das máximas do conflito e resultados corporativos suficientes para evitar que a desaceleração seja imediatamente precificada como recessão. Essa combinação sustenta ações enquanto o emprego esfria de forma gradual. O recorde do S&P, porém, já incorpora parte desse alívio.

Data Evento O que observar
12 de agosto Índice de preços ao consumidor (CPI) de julho e estoques da EIA Inflação cheia, núcleo, gasolina e petróleo
13 de agosto Índice de preços ao produtor (PPI) de julho Custos recebidos pelos produtores
14 de agosto Vendas no varejo de julho Demanda, consumo discricionário e revisões

O consenso reunido pela Reuters aponta CPI cheio de 3,4% em 12 meses e núcleo de 2,5%. Inflação sem nova aceleração, Brent estável, Treasury de 2 anos perto ou abaixo de 4,20% e uma alta mais distribuída entre setores reforçariam o cenário-base.

A combinação contrária seria CPI ou PPI acima do esperado com petróleo em alta. Nesse caso, a chance de aperto tenderia a subir e, mantidos os demais fatores, o dólar poderia ganhar força e os múltiplos das ações sofrer pressão. Varejo fraco abriria outro risco: a perda de empregos começaria a chegar às receitas antes de a inflação permitir juros menores.

A faixa confortável para o mercado continua estreita. A atividade precisa esfriar sem derrubar o consumo; os lucros precisam resistir; e a inflação precisa permitir que o Fed espere. A próxima semana testa preços e demanda separadamente. Basta um dos dois lados sair do lugar para o recorde perder apoio.

Análise completa
LATAM ALPHA

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