Macroeconomia Análise

A deflação de agosto favoreceu um novo corte da Selic

A deflação ampliou o espaço para outro corte da Selic. O desconto temporário na energia e os serviços ainda firmes mantêm o ciclo em passos curtos.

Medidor de eletricidade ao lado de uma sequência de luzes descendentes, representando o alívio do IPCA-15 e o ritmo cauteloso da Selic.
Ilustração editorial. A energia derrubou a prévia da inflação, enquanto os serviços ainda limitam a velocidade dos cortes de juros.

Em 30 segundos

  • O IPCA-15 caiu 0,40% em agosto e desacelerou para 4,24% em 12 meses, abaixo de todas as estimativas da pesquisa Reuters.
  • A energia elétrica recuou 6,25% com o Bônus de Itaipu e respondeu por -0,26 ponto percentual, enquanto algumas métricas de serviços aceleraram.
  • A leitura favorece outro corte de 0,25 ponto em setembro; a parte longa da curva ainda depende de expectativas, fiscal e cenário externo.

O IPCA-15 caiu 0,40% em agosto, a primeira variação mensal negativa desde agosto de 2025. Em 12 meses, a prévia da inflação desacelerou de 4,52% para 4,24%. As duas leituras ficaram abaixo de todas as estimativas da pesquisa Reuters, cujas medianas apontavam -0,30% no mês e 4,34% em um ano.

A abertura reduz parte do entusiasmo provocado pelo índice cheio. A energia elétrica residencial recuou 6,25% com a incorporação do Bônus de Itaipu e contribuiu com -0,26 ponto percentual. Esse impacto equivale a 65% da queda líquida do indicador e tem natureza temporária. Ao mesmo tempo, cálculos do Bmg publicados pela Reuters mostraram aceleração em algumas medidas de serviços e na média dos núcleos acompanhados pelo Banco Central.

Para o investidor, o resultado reforça a possibilidade de mais um corte de 0,25 ponto na Selic em setembro. O primeiro efeito tende a aparecer nos juros curtos e em ativos sensíveis à taxa de desconto. A parte longa da curva continuará exigindo melhora das expectativas, das contas públicas e do cenário externo.

Energia, transportes e alimentos puxaram a queda

O recuo foi concentrado em três grupos. Habitação caiu 1,41% e retirou 0,22 ponto percentual do índice. Transportes cederam 1,00%, com impacto de -0,20 ponto, enquanto alimentação e bebidas recuaram 0,57% e contribuíram com -0,12 ponto.

Componente Variação em agosto Impacto no IPCA-15 Leitura
Índice geral -0,40% -0,40 p.p. primeira queda mensal em um ano
Energia elétrica residencial -6,25% -0,26 p.p. Bônus de Itaipu reduziu as faturas
Habitação -1,41% -0,22 p.p. energia dominou o grupo
Transportes -1,00% -0,20 p.p. passagens aéreas e combustíveis caíram
Alimentação e bebidas -0,57% -0,12 p.p. alimentação no domicílio recuou 0,97%

Fonte: IBGE. Período de coleta de 16 de julho a 14 de agosto de 2026. Impactos em pontos percentuais.

A composição combina alívio temporário na energia com quedas em transportes e alimentação cuja continuidade ainda não está estabelecida. O bônus da usina hidrelétrica reduziu a conta de luz em agosto, embora a bandeira amarela continuasse adicionando R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora consumidos. O efeito sobre o nível de preços é real naquele mês, porém não se repete automaticamente nas faturas seguintes.

Transportes trouxeram alívio adicional. As passagens aéreas caíram 13,30%, os combustíveis recuaram 1,43% e a gasolina cedeu 1,23%. Na alimentação, a queda de 0,97% dos produtos consumidos em casa ajuda o orçamento das famílias de forma mais direta. A continuidade dependerá de oferta agrícola, câmbio e custos de energia.

Os serviços ainda pedem passos curtos

A média dos núcleos de inflação acompanhados pelo Banco Central passou de 0,20% em julho para 0,22% em agosto, segundo cálculo do Bmg citado pela Reuters. Os serviços adjacentes, que excluem itens mais voláteis, aceleraram de 0,30% para 0,50%. Serviços intensivos em mão de obra avançaram 0,55%, ante 0,48% no mês anterior. Os serviços em geral desaceleraram de 0,41% para 0,07%, uma diferença que recomenda olhar a composição em vez de extrapolar uma única medida.

Essa resistência ajuda a explicar a cautela do Copom. Na reunião de 5 de agosto, o Banco Central reduziu a Selic para 14% e afirmou que a inflação de serviços, as expectativas desancoradas e o risco fiscal exigiam restrição monetária por mais tempo. A ata projetava IPCA de 5,1% em 2026, 3,8% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028.

O Focus de 21 de agosto, coletado antes desta divulgação, trazia medianas de 5,02% para o IPCA de 2026 e 4,25% para 2027. A Selic projetada para o fim de 2026 era de 13,75%, exatamente um corte de 0,25 ponto abaixo do nível atual.

A reação inicial do mercado refletiu essa leitura intermediária. Às 9h42 BRT, o DI para janeiro de 2028 estava praticamente estável em 13,81%, enquanto o contrato de janeiro de 2035 caía 3 pontos-base, para 14,425%. A curva chegou às mínimas do dia após o índice cheio e depois se reaproximou da estabilidade. A Reuters relacionou a devolução à leitura dos serviços; no mesmo horário, os rendimentos dos Treasuries subiam após dados dos EUA, outro vetor para os DIs. São preços intradiários, não de fechamento.

A curva curta recebe o alívio primeiro

Um novo corte em setembro levaria a Selic a 13,75%. Se vier acompanhado de queda nas taxas de mercado relevantes, títulos prefixados já emitidos tenderiam a se valorizar e a taxa usada para descontar lucros futuros diminuiria, especialmente em varejo, construção, consumo discricionário e outras empresas dependentes do mercado doméstico. O efeito sobre crédito e bancos viria depois, conforme captação, inadimplência, spreads e demanda por empréstimos respondessem.

A transmissão fica mais incerta nos vencimentos longos. Como mostrou a análise sobre o freio fiscal de R$ 10 bilhões, a curva longa incorpora dívida, oferta de títulos e prêmio de prazo. Inflação corrente menor ajuda, sem substituir uma trajetória fiscal crível.

Próximo sinal O que confirmaria a tese Primeira exposição
IPCA cheio de agosto, em 11 de setembro alívio além de energia e passagens DIs curtos e títulos prefixados
Copom, em 15 e 16 de setembro corte de 0,25 ponto e comunicação gradual ações domésticas e crédito
Focus para 2027 e 2028 expectativas mais próximas da meta de 3% parte longa da curva e títulos indexados à inflação
fiscal, dólar e petróleo menor prêmio de risco e menos pressão de custos real, juros longos e margens empresariais

Elaboração LATAM Alpha com base em IBGE, Banco Central e Reuters. Os canais são condicionais e não representam previsão de preço.

O real também recebe forças opostas. Cortes mais rápidos reduzem o diferencial de juros que sustenta o carregamento da moeda. Inflação menor e prêmio fiscal em queda podem melhorar a percepção de risco. O resultado dependerá do dólar global, dos rendimentos dos Treasuries e de commodities como petróleo e diesel.

A tese ganha força se o IPCA cheio confirmar serviços mais fracos, as expectativas recuarem e a curva longa acompanhar a parte curta. Ela perde validade se o desconto da energia for devolvido, os serviços subjacentes permanecerem perto dos 4,6% da média móvel trimestral anualizada citada pela Reuters ou o risco fiscal ampliar o prêmio de prazo. A deflação abriu espaço para continuar o ciclo; os próximos dados decidirão sua velocidade.

Análise completa
LATAM ALPHA

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