Em 30 segundos
- A diferença entre os preços futuros do diesel americano e do petróleo WTI, referência nos EUA, tocou US$ 102,20 por barril em 17 de agosto, um recorde que indica escassez do combustível.
- Os estoques de diesel e óleo de aquecimento dos EUA caíram para 105,6 milhões de barris na semana encerrada em 14 de agosto, 9% abaixo de um ano antes.
- O próximo teste é o repasse: diesel rodoviário a US$ 5,454 por galão já pressiona frete, varejo, países importadores e a trajetória da inflação.
A diferença entre o preço futuro do diesel americano e o do petróleo americano WTI superou US$ 100 por barril pela primeira vez em 17 de agosto. O indicador, chamado crack do diesel, chegou a US$ 102,20 e mede a pressão do mercado sobre a capacidade de refino. Não corresponde ao lucro de cada refinaria.
Em julho, o Brent acima de US$ 100 não resolvia o gargalo das refinarias. Agora, o recorde, a nova queda dos estoques e os dados do Walmart mostram o avanço do choque para preços finais, custos empresariais e escolhas do consumidor.
O diesel ficou mais escasso que o petróleo
A Agência Internacional de Energia estimou que as refinarias processaram 80,9 milhões de barris por dia em julho, quase 5 milhões a menos que um ano antes. As exportações de diesel da Rússia, do Oriente Médio e da Ásia caíram 1,3 milhão de barris por dia, o equivalente a cerca de 20% do comércio marítimo global do produto.
Os EUA cobriram parte da falta. As exportações semanais de destilados (diesel e óleo de aquecimento) atingiram 1,935 milhão de barris por dia em 7 de agosto, recorde da Energy Information Administration. Na semana seguinte, recuaram para 1,601 milhão, enquanto os estoques domésticos caíram para 105,6 milhões, 9% abaixo de um ano antes.
| Sinal | Leitura | O que mostra |
|---|---|---|
| Futuros de diesel menos WTI | US$ 102,20 por barril | recorde intradiário em 17 de agosto |
| Estoques de diesel e óleo de aquecimento nos EUA | 105,6 milhões de barris | queda de 9% em um ano até 14 de agosto |
| Diesel rodoviário nos EUA | US$ 5,454 por galão | alta de US$ 1,741 em um ano até 17 de agosto |
Fontes: Reuters/LSEG e EIA. A diferença entre os preços futuros do diesel e do petróleo é uma referência de mercado e não corresponde ao lucro efetivo de toda refinaria. Estoques, exportações e preços semanais são estimativas.
O custo alcançou empresas e consumidores
Refinarias americanas e indianas ganharam poder de preço, mas a outra ponta da cadeia paga a diferença. Em julho, o Brasil importou dos Estados Unidos 196 mil barris de diesel por dia, mais que o dobro do mês anterior, segundo estimativa da Kpler publicada pela Reuters. Para importadores, a conta ainda passa pelo dólar e pela política doméstica de preços.
O varejo americano oferece um primeiro teste do repasse. O Walmart informou vendas comparáveis nos Estados Unidos, sem combustível, 2,6% maiores no trimestre encerrado em 31 de julho, abaixo dos 3,8% esperados pelo consenso compilado pela Reuters. A empresa apontou custos maiores de combustível na distribuição e no atendimento de pedidos entre as pressões sobre a margem. Seu diretor financeiro disse que, acima de US$ 4 por galão, a gasolina talvez tenha efeito psicológico e leve consumidores a fazer escolhas. Um balanço não descreve toda a economia, mas mostra como energia cara pode comprimir consumo e lucro ao mesmo tempo.
A duração decide o efeito sobre juros
A transmissão para a inflação não é automática. Se refinarias voltarem, rotas forem normalizadas e estoques subirem, o crack pode recuar antes de contaminar contratos e expectativas. O risco aumenta quando diesel e frete permanecem caros por semanas, elevando o custo de transportar alimentos, operar máquinas e repor mercadorias.
A ata de julho do Federal Reserve registrou que muitos participantes consideravam provável um aperto monetário se a inflação não cedesse. O diesel sozinho não determina essa decisão. Ele pode, porém, atrasar o alívio de energia que sustentava a projeção de inflação menor no segundo semestre, mantendo pressão sobre a disputa entre títulos públicos americanos e ações.
O teste combina preços futuros, estoques e preço final. Uma queda conjunta manteria o choque concentrado no refino. A persistência dos três, acompanhada por fretes ou inflação de bens mais altos, confirmaria sua dimensão macro para empresas e bancos centrais.